25/02/2010

EMPATIA ENTRE BICHOS

[Eriem Ferrara]
Diz o velho ditado “dois bicudos não se beijam” - Mas o que esse dito popular quer dizer exatamente?
Tratando-se de seres humanos entendo que duas pessoas sem a menor afinidade, com crenças e ideais diferentes quando dividem um mesmo espaço vive em constante “pé de guerra”, ou seja, não combinam, discutem por qualquer banalidade. Mas, em se tratando de bichos, como seria isso?
Vejam esta história.
Temos em casa uma cadelinha da raça pinscher (n° 1) seu nome é Baby, ela nem é tão bonitinha assim, mas é de uma sensibilidade fora do comum. Imaginem que todos os dias vários pardais voam até a área de nossa casa para compartilhar da comida da Baby e, ela temperamental como é, vira uma “fera”, late, corre e põe pra voar todos eles. Mas, um pardal em especial age diferente dos demais, ele vem com o bando, pousa na grade da área e observa todo aquele alvoroço, depois que todos vão embora a Baby e o Tico (nome que carinhosamente dei ao pardal, coitado nem sei se o bichinho é macho ou fêmea), bom como eu dizia, ambos ficam alguns instantes se observando, parece até que eles se colocam em posição humilde (empática) enquanto se contemplam, o Tico pende a cabecinha para um lado e encara sua “anfitriã” como a lhe dizer:
- Você agiu muito bem, meus coleguinhas são gulosos e mal educados... mas, eu posso dar uma bicadinha em sua comida?
A Baby como que aprovando o seu comentário e também seu pedido, deita-se e finge dormir, então o pardal voa até o prato de comida, dá umas boas bicadelas, as vezes até bebe um pouco de água, deixa uma sujeirinha aqui, outra ali e depois vai embora.
O engraçado é que depois que o Tico voa, a Baby parece despertar de seu transe, então começa a latir e correr em volta da área, aparentando uma fúria incontrolável. Mas a impressão que fica, é que sua atitude é puro teatro e que no fundo ela tem uma enorme simpatia pelo pardalzinho.

Um comentário:

Fanzine Episódio Cultural disse...

“Estou voltando...”
(Um conto africano)


Um jovem angolano caminhava solitário pela praia. Parou por alguns instantes para agradecer aos deuses por aquele momento milagroso: o deslumbramento de sua terra natal. O silêncio o fez adormecer em seu âmago, despertando inesperadamente com o bater das ondas sobre as pedras. De repente, surgiram das matas homens estranhos e pálidos que o agarraram e o acorrentaram. Sua coragem e o medo travaram naquele momento uma longa batalha... Ele chamou pelos seus pais e clamou pelo seu Deus. Mas ninguém o ouviu. Subitamente mais e mais rostos estranhos e pálidos se uniram para rirem de sua humilhação. Vendo que não havia saída, o jovem angolano atacou um deles, mas foi impedido por um golpe. Tudo se transformou em trevas.
Um balanço interminável o fez despertar dentro do estômago de uma criatura. Ainda zonzo, ele notou a presença de guerreiros de outras tribos. Todos se demonstraram incrédulos sobre o que estava acontecendo. Seus olhos cheios de medo indagavam. Passos e risos de seus algozes foram ouvidos acima. Durante a viagem muitos guerreiros morreram, sendo seus corpos lançados ao mar. Dias depois, já em terra firme, ele é tratado e vendido como um animal. Com o coração cheio de “banzo” ele e outros negros foram levados para um engenho bem longe dali. Foram recebidos pelo proprietário e pelo feitor que, com o estalar do seu chicote não precisou expressar uma só palavra. Um dia, em meio ao trabalho, o jovem angolano fugiu. Mas não foi muito longe; foi capturado por um capitão do mato. Como castigo foi levado ao tronco onde recebeu não duas, mas cinqüenta chibatadas. Seu sangue se uniu ao solo bastardo que não o viu nascer.
Os anos se passaram, mas a sua sede por liberdade era insaciável. Várias vezes foi testemunha dos maus tratos que o senhor aplicava sobre as negras, obrigando-as a se entregarem. Quando uma recusava era imediatamente açoitada pelo seu atrevimento. A Sinhá, desonrada, vingava-se sobre uma delas, mandando que lhe cortassem os mamilos para que não pudesse aleitar. O jovem angolano não suportando mais aquilo fugiu novamente. No meio do caminho encontrou outros negros fugidos que o conduziram ao topo de uma colina onde uma aldeia fortificada – um quilombo – estava sendo mantida e protegida por escravos.
Ali ele aprendeu a manejar armas e, principalmente a ensinar as crianças o valor da cultura africana. Também foi ali que conheceu a sua esposa, a mãe de seu filho. Com o menino nos braços, ele o ergue diante as estrelas mostrando-o a Olorum, o deus supremo... Surgem novos rostos, estranhos e pálidos, mas de coração puro, os abolicionistas. Eram pessoas que há anos vinham lutando pelo fim do cativeiro. Suas pressões surtiram efeito. Leis começaram a vigorar, embora lentamente, para o fim da escravatura: A Lei Eusébio Queiroz; a do Ventre-Livre, a do Sexagenário e, finalmente, a Lei Áurea. A juventude se foi. O velho angolano agora observa seus netos correndo livremente pelos campos. Aprenderam com o pai a zelarem pelas velhas tradições e andarem de cabeça erguida. Um dia o velho ouviu o clamor do seu coração: com dificuldade caminhou solitário até a praia. Olhou compenetrado para o horizonte. Agora podia ouvir as vozes de seus pais sendo trazidas pelas ondas do mar.
A noite caiu cobrindo o velho angolano com o seu manto... Os tambores se calaram... No coração do silêncio suas palavras lentamente ecoaram: “Estou voltando... Estou voltando...”

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*Agamenon Troyan
machadocultural@gmail.com